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BEBETO APRESENTOU A MAIS COMPLETA ANÁLISE DO GOVERNO MARÃO.

´Na verdade, o prefeito de Ilhéus é o governador Rui Costa´, ironiza Bebeto

O ex-deputado federal Adalberto Galvão, o Bebeto, iniciou sua trajetória política na segunda metade da década de 70, no MR8, organização que tinha uma célula em Ilhéus. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro foi um movimento político de extrema-esquerda marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira. 

A falta de liberdade era a marca da época. A missão às escondidas era articular silenciosamente os partidos de esquerda para, mesmo sob o forte olhar da ditadura, pudesse criar condições para cooptar militantes e organizar a base estudantil visando uma contestação ao regime pela luta.

 Em 78, Bebeto ingressou no PCdoB, onde recebeu a tarefa de continuar a luta organizativa no campo estudantil, ainda sob forte vigilância da ditadura. Foi da direção da União Estadual dos Estudantes, representando a posição do partido, até chegar os anos 80, quando participou do processo da luta democrática, de contestação do “sindicalismo pelego”, como intitula, até então, comandado pelos militares. 

A escolha à época pelo PCdoB até hoje é justificada. “A luta sindical era quem mais incorporava a capacidade de contradição com o capitalismo, abrindo frestas de liberdade no campo do trabalho para melhorar as condições de vida da classe trabalhadora. Era luta por emprego, salário e liberdade”, assegura.

Também lhe coube a tarefa de organizar a ação sindical na região, em especial, nas fábricas de cacau para arregimentar militantes e organizar a retomada do sindicato. Bebeto era funcionário da então poderosa Barreto de Araújo. Estrategicamente conseguiu uma mudança de posto que foi fundamental na organização dos trabalhadores. Saiu do setor administrativo e foi trabalhar na produção da indústria. 

“Lá era o centro nevrálgico da contradição de classe em função da produção realizada, da expropriação praticada pelo capital em relação ao trabalho realizado por milhares de trabalhadores”, afirma. Paralelo a esta ação mais localizada, começou a circular por todas as indústrias moageiras da região. A meta era articular nas fábricas a retomada do sindicato, que estava sob a tutela do regime militar. Em 82, a primeira vitória: o sindicato avançou e passou a operar através de uma junta governativa. Bebeto organizou a primeira greve dos trabalhadores na indústria do cacau, em 1984. Um momento histórico na região. 

Em 1992 foi o primeiro comunista a conquistar um mandato de vereador em Ilhéus. Não conseguiu se reeleger em 96. “Mas olhei pra frente”, afirma. Foi Assessor da Secretaria de Relações Institucionais da Prefeitura de Ilhéus, no governo do então prefeito Jabes Ribeiro. Em seguida voltou ao movimento sindical, deixou o PCdoB e se dedicou à tarefa de organizar a Força Sindical na Bahia. Foi diretor da CUT estadual, contemporâneo do hoje senador Jaques Wagner. Em 2010 ensaiou um voo mais alto: ser deputado estadual. “Sim, isso mesmo. A ideia era (ser) candidato a deputado estadual”, mas o partido alterou o status da candidatura para federal. Teve que desconstruir bases, desfazer acordos e terminou na quinta suplência da Bahia na Câmara Federal. Em 2014, dobrou a votação anterior com mais de 97 mil votos, elegendo-se deputado federal. Quatro anos depois, optou por não tentar a reeleição. E tem que justificar essa decisão por onde passa até hoje.

“Para a composição da chapa majoritária alguns tiveram que fazer sacrifícios pela necessidade de consequências diretas na composição das chapas, um esforço de tentar pacificar o nosso campo político. Apelos foram feitos, demoramos 60 dias para debater, realizei plenárias e decidi abrir mão. Fizemos um ajuste que, novamente, faria. A luta política é maior que o cargo que eventualmente você representa”, justifica a decisão. 

Candidato derrotado a prefeito de Ilhéus em 2016, Bebeto atribui o insucesso a uma decisão que tomou em Brasília. Antes do impeachment da presidente Dilma Rousseff, Bebeto assegura que convergiam 50 por cento de intenção de voto à sua candidatura em Ilhéus. Ao votar contra o impeachment, teria perdido musculatura eleitoral. “Minha história é pequena, mas só eu posso falar por ela. Veio o desafio do impeachment, que tinha como escopo criminalizar Dilma sem nenhuma base institucional. Imputaram a ela uma responsabilidade não albergada pela Constituição. Uma responsabilidade política e não de infração político-administrativa. Disse ao partido que não votaria (a favor da saída) porque não havia crime ali praticado. Havia a possibilidade de votar e se votasse estaria convergindo com parte do sentimento da população de Ilhéus. Eu fiz a pesquisa. Eu preferi me perfilar contra, para zelar por minha história e sabendo que o desdobramento do impeachment poderia ser fatal para a minha candidatura”, se explica. 

Agora, Bebeto anuncia sua pré-candidatura a prefeito de Ilhéus pelo PSB. Nesta entrevista exclusiva concedida ao jornalista Maurício Maron, ele fala da sua decisão, do momento político nacional, faz fortes críticas ao prefeito Mário Alexandre e diz como pretende governar Ilhéus, caso seja o escolhido da população, ano que vem.

 Abaixo, leia a entrevista. É esclarecedora sob vários aspectos.

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Então, na sua opinião, a votação em Brasília em defesa da presidente Dilma Rousseff foi fundamental na decisão eleitoral de 2016 em Ilhéus. 

Fui candidato numa circunstância política que a maioria da população de Ilhéus achou que a minha posição era uma posição de ter traído a cidade. Não foi. Era uma posição de afirmar que o jogo que a cidade não percebeu se evidenciou depois, inclusive contra os nossos interesses.

Mas porque o senhor chega a esta conclusão? 

Fiz um debate leal mostrando às pessoas as razões do meu voto. É óbvio que os meus oponentes viram que havia uma inclinação muito forte da população de Ilhéus quando se votava no Impeachemnt e estouraram isso ao limite. Reacenderam o voto do Impeachemnt que os incautos deixaram se iludir com esse discurso, com a narrativa. Imputo em parte aos problemas do voto em Brasília a minha derrota em 2016. 

“É da natureza democrática do governador, do seu comportamento fino, de tentar convencer. Jamais impor.” 

Hoje, vendo os rumos que o País toma no que diz respeito às conquistas dos trabalhadores, como é relembrar o trabalho, a luta do passado? 

Trabalhei minha vida inteira para a constituição de um governo de progresso social e de uma agenda de valorização social do trabalho, vinculado a um projeto de desenvolvimento nacional que tem a ver com trabalho e a qualidade do trabalho. Nos Estados Unidos, por exemplo, você não mede o PIB apenas pela quantidade de riquezas geradas pelos setores. A massa salarial é determinante. Isso é o indicador de riqueza. Sempre trabalhei para que o projeto de desenvolvimento nacional, associado à qualidade e a forma de trabalho, fosse a expressão da qualidade de vida da sociedade. 

“Essa não é uma eleição que os candidatos por si só devam resolver. Os ilheenses têm uma responsabilidade direta, na exigência de bons programas e no acompanhamento de um eventual governo.”

Estamos retroagindo? 

Depois de lutas e conquistas com investimento em ciência e tecnologia, em educação, com programas para combater déficit habitacional da população, conquistas importantes de um período longevo, fruto da opção política que fizemos, esse resultado é lamentável em função do avanço da direita no Brasil e no mundo, que o Brasil se deixou chacoalhar. Se alguém cometeu um erro, temos que identificar esses erros e temos que pedir, inclusive, desculpas à própria sociedade, dizer a ela que errou, que ninguém é infalível. E penso que potencializaram demais o erro de um ou de outro, militantes do PT, dirigentes do PT, de um partido de esquerda para criminalizar os partidos como um todo. Ou seja: o erro de um gerou a criminalização da esquerda como um todo. E ao criminalizar, se oportunizaram deste debate, potencializaram como se todos fossem criminosos, venderam uma ilusão, associados com a grande mídia brasileira e com parte do judiciário. Isso eu chamo de interseccionalidade, ou seja, o Judiciário cumpre um papel, a mídia cumpre outro e o plano político cumpre outro, fazendo a contenda política de criminalizar, de modo que os partidos de esquerda ficaram acuados, sobretudo o partido que hegemoniza a esquerda no Brasil, o PT, o mais atingido. E a direita ganha a eleição, primeiro com um golpe (posse de Temer) ao tirar Dilma, se encastela na máquina pública, estabelece as relações com o poder econômico, ganha uma eleição assentada nas fakenews (notícias falsas). Digo: Bolsonaro é presidente por que alterou as frequências democráticas brasileiras com base na mentira. Se fosse por face por face, o que ele poderia apresentar à sociedade? Absolutamente nada! Bolsonaro está fazendo um governo que desmonta o Estado brasileiro, é menos Estado e mais capital o que ele deseja. E veja o resultado disso. A Reforma da Previdência, a entrega do patrimônio nacional com privatizações, estamos entregando a descoberta do pré-sal. Nós não vamos ter condições de reconstituir um projeto de desenvolvimento nacional integrado. O que Bolsonaro faz: entrega as riquezas nacionais, privatiza nossas estatais, empobrece a população, persegue os seus oponentes, retira um conjunto de direitos dos trabalhadores.

O que o senhor tem a dizer, também, sobre isso. 

Que, infelizmente, parte da sociedade brasileira votou – e até muitos trabalhadores – animada pela possibilidades de que ele faria mudança, de que combateria a corrupção, mas, agora, taí ele. Onde é que está Queiróz? Perdemos a correlação de força, destruíram os sindicatos. Mas estamos acostumados. Nós vamos reagir como reagimos na ditadura. Penso que o passo importante são as eleições de 2020. Por que as eleições elas têm, tanto por um lado, a condição de afirmar o autoritarismo, como abrir a possibilidade para a inovação democrática visando restabelecer as bases de um centro político com vistas às eleições de 2022. E aí, sim, ganhar as eleições com base na plataforma em que você apresente à sociedade uma discussão sobre uma proposta revogatória de medidas relacionadas à Reforma Trabalhista mas, também, de revisão da Reforma Previdenciária, hoje nociva à sociedade. 

“Quem é que impediu Mário de trabalhar? Quem? Não trabalhou porque não tinha nenhum projeto para a cidade. Depois formou o governo assentado no personalismo, numa heterogeneidade. Um governo heterogêneo, personalista e sem liderança. Cada secretário transformou a sua secretaria em um feudo pessoal.” 

Por falar em debates. O senhor debateu suas propostas quando candidato em 2016? 

Em 2016, no processo de disputa eleitoral, apresentei um conjunto de propostas de desenvolvimento urbano da cidade. Penso na integração das duas principais cidades, numa Região Metropolitana, garantindo autonomia dos municípios de Ilhéus e Itabuna, que são bipolos. Mas ao mesmo tempo tendo um Plano de Desenvolvimento Integrado. Você precisa realizar esta medida que você passa a tratar a educação não apenas de uma visão da rede, mas, sobretudo, na qualidade do ensino, integrando Escolas de Tempo Integral e os destinos orçamentários que precisam ser alocados para as cidades. O debate foi morno, raso… e foi de forma proposital. Não quiseram debater absolutamente nada. Por exemplo: os modais de transportes da cidade. Passada a eleição, a sociedade optou e eu respeitei o resultado democrático das urnas, me impus uma quarentena para não criticar a administração, sob pena de a população dizer que o deputado da cidade, ao invés de ajudar, estava fazendo oposição. Eu posso comprovar. Neste tempo destinei 14 milhões de reais em emendas parlamentares para a cidade, que não foram executadas por incompetência da gestão pública municipal. 

Um momento. O senhor está falando que conseguiu 14 milhões para Ilhéus e que este recurso não foi aproveitado pelo prefeito? 

Sim, claro. Não foram. Na saúde, sim. Na saúde ele fala que foi ele mas os equipamentos que seriam destinados aos postos, com recursos nestas emendas, nem estão lá. Então o que eu fiz. Observei o quadro e a cidade regrediu. E o que me faz voltar. Sou filho de Ilhéus. Os meus adversários até dizem “Bebeto não vive em Ilhéus”. É por que eles não sabem o sacrifício de um pai de família ter que manter os seus filhos. E eu não sou filho de nenhuma família rica, teci a minha vida pelo trabalho. Sai para trabalhar em Salvador, mas, aqui, tenho os meus filhos, minha casa, gasto meus recursos aqui. Sai para cuidar dos meus filhos e tive a honra de formá-los. Na condição de um homem simples, pobre e negro, muito discriminado às vezes. Vou e volto, trabalhando. Vou e trago (recursos) para aqui. Aliás, essa narrativa deles, sei como se trata. Como não tem o que dizer de mim, dizem apenas que Bebeto não está vivendo em Ilhéus. Mas na hora que a cidade me der a oportunidade de ganhar (a eleição) e dirigir a prefeitura, estarei 24 horas integrais com o povo, como sempre estive, para cuidar da vida da cidade. 

Isso não é um processo de vitimização?

Nenhum deles levanta o dedo para dizer que Bebeto está envolvido em desvio ético, falcatruas. Na Câmara apure como foi meu comportamento. Voltei para a condição de candidatura olhando o quadro da cidade. Não é razoável, por exemplo, que o transporte público de Ilhéus, que a Prefeitura vive fazendo gestos para os empresários, deixando a população refém. Essa relação incestuosa comigo não dá, vai acabar. Uma outorga de 30 anos feita pelo município e com as bases contratuais existentes e o descumprimento contumaz por parte dos empresários, o prefeito com coragem já deveria ter cassado a concessão e feito uma nova licitação para deixar a população livre. Hoje a população é refém deste transporte. Por que é que o prefeito não tem a coragem de enfrentar? Ônibus caindo porta, caindo janela, população empurrando, não serve aos bairros de forma digna… Não dá! 

“O Mário (Alexandre) venceu uma eleição sem saber o que fazer da cidade. Apenas com o chavão “Cuida de mim, doutor”. E quando ele foi para a eleição eu disse a ele “você precisa fazer um acordo porque a sua eleição pode significar a derrocada da reeleição de sua mãe. Você não pode querer tudo”.” 

Onde mais o senhor tem críticas ou percebe algum tipo de involução? 

Não houve um avanço sequer no debate do Plano Diretor Urbano. Uma cidade como Ilhéus em que você não tem o Conselho da Cidade que possa refletir com urbanistas as diversas engenharias aqui estabelecidas… os que vivem e que amam esta cidade, considerando inclusive a sua própria topografia… como vamos pensar o desenvolvimento urbano? Pensar a expansão industrial, que estamos saturados, a expansão urbana residencial, mas também pensar as zonas de interesse social, de interesse econômico. Como vejo a cidade? O bairro Banco da Vitória, nos limites da cidade de Ilhéus, que destino vou dar para ele? Será um bairro Gastronômico? Mas quais são os serviços que vamos aportar, debatido com a cidade, para que ele se torne um bairro de visitação e no calendário turístico da cidade ele seja parte integrante desta visitação. Como posso debater um corredor técnico-científico dos mais importantes que você tem Senai, Sesi, Universidade Federal do Sul da Bahia, você tem a Uesc, um banco de pesquisa importante que é a Ceplac? E o Salobrinho que se tornou hoje um bairro residencial para quem aqui estuda, deveria ser um polo dos mais importantes, com infraestrutura, com saúde para a população, mas também exigindo das universidades uma integração com seu papel social… 

… Isso acontece?

 A Uesc criou muros, não dá. E eu vou dizer ao governador, como prefeito, que não tolero a Uesc criar muros e separar o bairro do Campus. Mas isso tem que partir de um prefeito com liderança, que respeite sua posição com o governador, mas que cobre um posicionamento em defesa da cidade. A Uesc é a única que não é multicampi e, ao lado dela mesma, a Uesc não cumpre esse papel. Não dá para aceitar isso! 

Me dê um outro exemplo de intervenção de Plano Diretor que o senhor defende? 

O Teotônio Vilela. Um forte comércio existente, com ordenamento que se possa fazer dentro do Plano Diretor Urbano em que você possa dotar ali de agências (bancárias). Tem que negociar. Se eu for negociar (o pagamento da) folha dos servidores públicos não pode ser apenas para receber um valor para o governo em função da venda da folha. É receber devolvendo à cidade aquilo que é mais importante. Se eu for prefeito, se a cidade me der essa oportunidade, na hora em que for tratar desse tema da venda da folha como tantos tratam aí, vou dizer, veja bem: a venda da folha está associada à instalação de uma agência bancária no Teotônio Vilela, por que o bairro tem comércio formal importante aqui, por que é uma área de interesse econômico. 

“A Uesc criou muros, não dá. E eu vou dizer ao governador, como prefeito, que não tolero a Uesc criar muros e separar o bairro do Campus. Mas isso tem que partir de um prefeito com liderança, que respeite sua posição com o governador, mas que cobre um posicionamento em defesa da cidade.” 

E sob o ponto de vista econômico, como enxugar a máquina pública sem demitir? 

Não dá para uma estrutura administrativa ser tão pesada e com gente que não conheça a cidade. O atual prefeito, a maioria dos seus cargos de confiança, é de fora. Na governança pública temos que ter controle em relação ao orçamento do município, custeio da máquina, trabalhar no Código Tributário definindo quem mais e quem menos pode pagar. Voltei para trabalhar isso. Quero debater. Não é uma candidatura pela candidatura. Mas uma candidatura associada a um projeto de cidade que considere eixos importantes da governança pública, da infraestrutura, do desenvolvimento, da mobilidade, da educação, da saúde. E esse é o desafio que nós temos. 

Tenho feito uma mesma pergunta a todos os pré-candidatos entrevistados. Como o senhor analisa o afastamento de trabalhadores, do período de 83 a 88, que não prestaram o concurso público e saíram sem nenhum direito trabalhista respeitado? 

É algo impensável. Primeiro a desumanidade do afastamento. Eu prefeito jamais me permitiria. Trata-se do afastamento de 300 pais de família, quando você deveria sentar à mesa e negociar. Uma mesa permanente é a melhor solução. E a narrativa utilizada foi que houve um mandamento judicial e que ele deveria assim agir. Havia mecanismos para solução negociada nos autos do processo e outras soluções de reincorporação dos próprios servidores. Agora, pasmem: o pior é que o governo que deveria economizar mais de 2 milhões e meio, cerca de 3 milhões com isso, diferentemente da economia, ele acresce a sua folha de pessoal em mais de um milhão. É uma contabilidade que não fecha. Ou seja: isso é resultado – posso te dizer – que diferentemente do que ele preconizou – e eu quero fazer isso como denúncia mesmo -, o governo está fazendo um processo de cooptação, de pegar as pessoas, fazer seleção pública, utilizando esse critério de seleção pública, para trazer gente para a folha de pagamento, mas cooptando para a política. Por que quase todos que estão aí, eles estão usando a máquina do município como cooptação, para tentar dar sustentação à sua reeleição. 

“Não é razoável, por exemplo, que o transporte público de Ilhéus, que a Prefeitura vive fazendo gestos para os empresários, deixando a população refém. Essa relação incestuosa comigo não dá, vai acabar. Uma outorga de 30 anos feita pelo município e com as bases contratuais existentes e o descumprimento contumaz por parte dos empresários, o prefeito com coragem já deveria ter cassado a concessão e feito uma nova licitação para deixar a população livre.” 

Na condição de suplente do Senado, o senhor terminou, inicialmente, assumindo o Escritório Político da Bahia em Brasília. Mas não ficou muito tempo. 

Primeiro seria assumir o escritório político do governo do Estado. Sempre foi um espaço do PT e de articulação tanto dos projetos macros do governo quanto da agenda legislativa com impacto tributário e fiscal para o estado da Bahia. Esse sempre foi o papel que se cumpriu no escritório. São mais de 20 servidores, de procuradores, economistas, jornalistas… uma estrutura à altura dos desafios do Estado. A nomeação, o governador fez, mantive durante um mês e meio, mas entendeu o governador e entendeu também o meu partido que, considerando a minha trajetória e a possibilidade de minha candidatura (a prefeito de Ilhéus), adequado seria eu estar mais próximo, estar na Bahia. Então o governador me renomeou como seu Assessor Especial, o que me permite estar muito mais próximo, tanto das políticas que o governo estabelece na Bahia, quanto de Ilhéus. Estou aqui (em Ilhéus) semanalmente em função desta minha possibilidade. Em Brasília teria a distância e me faltaria a possibilidade de estar no dia-a-dia da cidade. 

O senhor chegou a imaginar este quadro político real existente hoje em Ilhéus? 

O Mário (Alexandre) venceu uma eleição sem saber o que fazer da cidade. Apenas com o chavão “Cuida de mim, doutor”. E quando ele foi para a eleição eu disse a ele “você precisa fazer um acordo porque a sua eleição pode significar a derrocada da reeleição de sua mãe. Você não pode querer tudo”. E eu disse a ele ainda que não dava para fazer um acordo baseado apenas nesse interesse que ele teria. Não dava. Então disse a ele: “o PSB vai seguir o caminho e concorrer à eleição”. E foi isso que fizemos. Quando veio para a eleição e ganhou, eu diria a você que tínhamos um prefeito de mãos livres que poderia ter organizado melhor o seu governo, credenciado pela população para fazer uma gestão extremamente eficaz. Foi o que nós apostamos. Esta história aí de dizer “deixa o homem trabalhar” é uma mentira deslavada. A Câmara ficou sem fazer oposição. Parte do movimento sindical aqui também não gerou muita contestação ao governo. Só recentemente reagiu. As associações de moradores, de boa forma, não. A população em geral numa grande expectativa. 

“Eu não sou filho de nenhuma família rica, teci a minha vida pelo trabalho. Sai para trabalhar em Salvador, mas, aqui, tenho os meus filhos, minha casa, gasto meus recursos aqui. Sai para cuidar dos meus filhos e tive a honra de formá-los. Na condição de um homem simples, pobre e negro, muito discriminado às vezes.” 

Alguém tem impedido ou dificultado o trabalho do governo? 

Quem é que impediu Mário de trabalhar? Quem? Não trabalhou porque não tinha nenhum projeto para a cidade. Depois formou o governo assentado no personalismo, numa heterogeneidade. Um governo heterogênio, personalista e sem liderança. Cada secretário transformou a sua secretaria em um feudo pessoal. Ao ponto de contestar a própria autoridade do prefeito. Um fato recente disso foi a eleição da presidência da Câmara. Então, amigo. Quem não exerce uma liderança, não tem autoridade sobre os seus liderados para pensar o planejamento, os eixos da gestão pública, fazer o que? Não estaria noutra realidade, senão nesta em que estamos vivendo, de 80 por cento de rejeição (SIC) do governo. Não é porque a oposição criou dificuldades, nem essa rejeição está associada a uma posição da Câmara, de ninguém. Ele próprio não foi capaz de gerir a máquina pública. Vou repetir: governo heterogênio, feudo nas secretarias, sem liderança para tocar a gestão pública e sem dizer o que pensa sobre a cidade. 

Mas o prefeito se movimenta. Acho que isso está claro para a população. 

Eu propus a ele, está na Conder para fazer a legalização fundiária na cidade. Esse é um desafio que estou assumindo o desafio da candidatura para tratar deste tema também. Banco da Vitória, por exemplo, as pessoas vivem na insegurança jurídica, sem o título da sua própria propriedade. O Teotônio Vilela de igual forma. Nossa Senhora da Vitória, também. Boa parte da cidade de Ilhéus não tem (a legalização). E o que a gente havia acertado? O Governo do Estado banca, via Conder, ele dá uma contrapartida, mais um técnico em algumas condições para entregar os títulos definitivos a esta população… nem isso se faz, amigo! 

Não está radicalizando? Não há nada de positivo? 

Eu não vejo algo que possa reputar como o mais positivo e tal. Sabe porque não vejo? Porque se eu retirar as obras do governo do estado, como o Hospital Costa do Cacau, o futuro Hospital Materno-Infantil, a ponte, a pavimentação asfáltica, a Vila Gastronômica do Banco da Vitória, a Estrada do Cacau e do Chocolate, o saneamento básico da zona sul… tirando essas obras, minhas emendas para a saúde… o que ele fez com recursos próprios? Na verdade, o prefeito da cidade é o governador Rui Costa. Não é nem uma questão de ser mais fácil pedir do que fazer. É incompetência de fazer. Porque pedir, todo mundo pede. É que o governador está sendo pai e mãe da cidade. Vá em qualquer cidade pequena, vá em Barra do Rocha, um FPM de 0,6, é obra em cima de obra com recursos próprios! 

“Parte da sociedade brasileira votou (em Bolsonaro) – e até muitos trabalhadores – animada pela possibilidades de que ele faria mudança, de que combateria a corrupção, mas, agora, taí ele. Onde é que está Queiróz?” 

Há caixa para se fazer com recursos próprios? 

No debate político vou aprofundar os dados que tenho do Tribunal de Contas dos Municípios para dizer a população onde o dinheiro está sendo enfiado. 

Como unir o campo da esquerda para viabilizar uma candidatura competitiva ano que vem em Ilhéus? 

Conversei muito com o PT, por três vezes, conversei com o PCdoB, também. Disse a eles que entendo que na longa trajetória nas disputas eleitorais que temos aqui na cidade, a modulação de um campo político assentado não só em um programa, mas, também, em um referencial histórico de aliança entre nós, nos permite ganhar a eleição. As pesquisas estão demonstrando isso. Eu disse a esses partidos que nome pelo nome não me serve. O que deve nos unificar é um programa comum e para construir esse programa eu sugeri aos partidos realizar cinco seminários temáticos. Mas não só entre os partidos. Chamar as faculdades, especialistas, para pensar a cidade. Essa não é uma eleição que os candidatos por si só devam resolver. Os ilheenses têm uma responsabilidade direta, na exigência de bons programas e no acompanhamento de um eventual governo. 

“O erro de um gerou a criminalização da esquerda como um todo. E ao criminalizar, se oportunizaram deste debate, potencializaram como se todos fossem criminosos, venderam uma ilusão, associados com a grande mídia brasileira e com parte do judiciário. Isso eu chamo de interseccionalidade, ou seja, o Judiciário cumpre um papel, a mídia cumpre outro e o plano político cumpre outro, fazendo a contenda política de criminalizar, de modo que os partidos de esquerda ficaram acuados.” 

O senhor cita nominalmente o PT e PCdoB. E outras siglas como, por exemplo, o PP, que é forte na cidade e integra o núcleo político do governador. Não foi lembrado. 

Não estou excluindo. Estou dizendo que estes partidos sempre nuclearam uma relação política do projeto nacional. Eu acho que os partidos que estão na base (do governador) devem dialogar. O PP tem uma complicação. Mas como dizem os chineses: “se é impossível, vamos fazer. Se é difícil, está feito”. Na minha opinião, se nós tivermos juízo, o centro político situado na esquerda tem chance real de dialogar com a cidade de Ilhéus, apresentar um projeto de cidade, ganhar a eleição e fazer uma diferença, aproveitando a capacidade criativa do nosso povo e as potencialidade técnicas que a cidade tem. Eu não preciso buscar gente fora para compor meu secretariado. Não é possível que traga gente de outras cidades que sequer conhece Ilhéus, os bairros ou a rua da Tangerina. 

Essa sua declaração, me vale uma provocação. O senhor considera desnecessária a presença de gente de fora na administração local. Mas o senhor é de Ilhéus e trabalha em Salvador. Não está com um discurso e uma ação diferentes? Incoerentes? 

Mas eu trabalho no serviço estadual, é mais amplo ou não é? Tem uma diferença. O governo que eu trabalho é estadual. 

Foi também ser sindicalista em Salvador, fora do seu âmbito geográfico, para buscar oportunidades. Os outros também não têm esse direito? 

Aí não fui de governo. Fui da iniciativa privada, no sindicalismo estadual. Também não tem a ver. 

“Os meus oponentes viram que havia uma inclinação muito forte da população de Ilhéus quando se votava no Impeachemnt e estouraram isso ao limite. Reacenderam o voto do Impeachemnt que os incautos deixaram se iludir com esse discurso, com a narrativa. Imputo em parte aos problemas do voto em Brasília a minha derrota em 2016.” 

Como assessor direto do governador Rui Costa, diria que dos pré-candidatos é o senhor que está mais próximo dele, todos os momentos, todos os dias. Qual a sensação do caminho que ele vai tomar na eleição em Ilhéus, onde tem muitos aliados pensando em um só cargo? 

Eu não posso falar pelo governador (risos). Meu sentimento… o governador é óbvio que no Conselho Político considerará as 30 cidades mais importantes que ele vai participar do debate e da tentativa de convergência dos partidos que compõem a sua base. Ele me disse que iniciará este debate agora em dezembro, janeiro de 2020. Óbvio que Ilhéus é uma dessas cidades mais importantes. Foi a sexta economia do estado e, lamentavelmente, estamos ocupando a 11º lugar. Mas voltando a sua pergunta. É da natureza política dele que ele vai basear as escolhas em alguns indicadores. Primeiro, quem marchou com a candidatura dele na cidade? Segundo: aquele prefeito migrou ou é do partido aliado? Terceiro: existe mais de uma candidatura dos partidos da base na cidade? Quarto: os partidos sentados à mesa… há condição de considerar que a nossa candidatura corre risco em caso de uma candidatura de oposição? Se corre risco é possível uma convergência em torno destes partidos da base no município? É da natureza democrática do governador, do seu comportamento fino, de tentar convencer. Jamais impor. 

Vou insistir. E o PP? Que possibilidade de aliança há? 

Porque também é assim. Tem que ser muito claro. Se nós estivermos melhores que o PP nas pesquisas, porque o PP não pode fazer um gesto de apoio a algum destes partidos. É aguardar o tempo da política e verificar o desdobramento do próximo ano.  

 Nota da Redação: 

1. É natural que, ao tentar a reeleição, o prefeito Mário Alexandre seja a referência e o “alvo” dos adversários para as críticas feitas à gestão municipal. Desde que iniciamos esta série de entrevistas com os pré-candidatos a prefeito, Mário tem sido lembrado por eles e muitas das críticas, naturalmente, direcionadas à sua gestão. Este site esclarece que há um ano vem tentando uma entrevista exclusiva com o prefeito de Ilhéus. Usou os caminhos tenicamente corretos para isso: a Secretaria de Comunicação Social. A resposta sempre foi a mesma: logo que tiver um espaço na agenda, o prefeito concede a entrevista. A conlusão que chegamos a esta altura é que ou o prefeito está com uma agenda disputadíssima ou não deu importância ao nosso humilde pedido. De qualquer forma, se na condição de prefeito não lhe foi possível falar sobre a administração, continua o espaço aberto neste site, caso o mesmo queira falar sobre política e o trabalho que pretende realizar para sua reeleição. Esta série, repetimos, é dedicada aos pré-candidatos ao Palácio Paranaguá.  

TAGS:BEBETOENTREVISTAPOLÍTICAILHÉUSBAHIA

Matéria de 13 de novembro de 2019 do site http://www.osarrafo.com.br/v1/2020/09/23/bebeto-apresentou-a-mais-completa-analise-do-governo-marao/

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